Pediu um beijo a ele e recebeu um “sinto muito”. Mas na verdade ela sentia muito. Muito amor, muita paixão, muito tesão. Ele, na verdade, não sentia nada. Saiu sentindo muito. Um muito que foi diminuindo, diminuindo, até não sentir tanto assim e de repente até não sentir nadinha. Ele, por sua vez, começou a sentir. No começo um pouco e logo um muito. E aí a frase fazia sentido. Sinto muito. E agora, era ele quem pedia um beijo e era ela quem respondia. Não sinto nada. Nada mais. Não mais.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
De frente para ela, na presença do padre, jurou amor eterno. Novamente, agora na frente do juíz de paz, jurou fidelidade e amor até o fim da vida. Foram felizes para sempre por exatamente cinco meses. Depois cada um seguiu seu caminho. Algum tempo depois ele descobriu que sentia falta dela e ela dele. E começaram a se encontrar. E a rir novamente. Agora sem mais papel, sem benção, somente com o amor que parecia renascer e a crescer cada dia que tomavam café juntos. E prometeram não prometer. E juraram não jurar mais. Não colocar reticências onde cabiam tantas vírgulas e pontos. Alguns de interrogação, outros de exclamação, e caso tivesse que ser, um ponto final. Sem culpa. Sem medo. Apenas um ponto final na vida de cada um, como fizeram tantas vezes pra tantas outras coisas.
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Abriu o jornal e sem entender muito porque parou na sessão de obituários. Logo na primeira coluna uma foto que chamou sua atenção. Buscou no fundo das memórias e finalmente reconheceu o rosto. Era ela! A menina que ele trocou um beijo pela primeira vez, aos 11 anos e meio. Isso mesmo, deu seu primeiro beijo com 11 anos e meio. E lá estava ela, a boca que iniciou sua vida amorosa. Morta. Com velório e enterro marcados para aquele mesmo dia. Logo ali, há uns 6 quarteirões. Decidiu que iria. Arrumou-se, perfumou-se, penteou os cabelos já brancos e foi. No caminho ficou a pensar o que faria. Não sabia. Só sabia que ia e foi. Quando chegou ao local não havia ninguém. Apenas o caixão, o corpo e um cheiro forte de rosas. Aproximou-se, fitou-a por uns segundos, chegou mais perto, levantou o véu transparente que cobria o rosto dela e a beijou os lábios, mais uma vez e pela última vez. Parecia sentir a mesma emoção do primeiro beijo. Sentiu o coração acelerar, mais e mais. A vista embaçou e caiu ali mesmo, ao lado do caixão, morto.
Resolveu encarar o estranho que a olhava de longe. Ele piscou. Ela corou. Ele enviou pela atendente um biscoito da sorte e um papel com nome e telefone. Ela abriu o biscoito. Pegou a mensagem e leu. Olhou-o novamente e sorriu. Nunca tinha feito algo tão arriscado. Ele se aproximou e perguntou se podia sentar. Ela assentiu com a cabeça. Conversaram por horas. Ela até perdeu o horário da consulta. Quando se deu conta, pediu desculpas e saiu correndo. Deixou sobre a mesa o telefone do estranho. Voltou várias vezes ao mesmo lugar, mas nunca mais encontrou o olhar que buscava. Nunca mais encontrou aquela coragem que sentiu naquele dia.
Brigaram feio. Trocaram ofensas. Usaram as armas mais pesadas e feias, um contra o outro. Saíram. Cada um para um lado, no meio da multidão, sem olhar pra trás. A raiva era tanta que talvez fossem capaz de se matar ou se amar. Uma hora depois ele estava no escritório. Mais calmo, admirando a beleza da cidade lá de cima, do andar mais alto, do prédio mais alto da ilha. Ela sentada numa cafeteria, mais calma, conseguia avistar o prédio em que ele trabalhava. À distância, quase dava pra ver, ou imaginar, a sala dele. E essa distância transformava a raiva em quase nada, e ela quase ria da briga. Pensou em ligar. Mandar uma mensagem. A raiva estava pequenininha, mas aquele danado do orgulho tinha fincado o pé e não parecia ceder. Olhou para a rua e de repente um estrondo. Gritos. A vista do prédio não havia mais. Fumaça. Muita fumaça. Imóvel. Mais um estrondo. Os estrondos pareciam a raiva que cada um continha dentro de sim. Mas era tarde. Era tarde.
Trocou todas as fotos dos porta retratos. Mudou a cor da parede. Mudou a decoração de lugar. Mudou o desinfetante que usava para limpar o apartamento. Ainda assim parecia que a casa tinha a presença dele em cada canto. Resolveu mudar. Vendeu a casa. Comprou um apartamento. Saiu da beira do mar e foi pro meio da cidade. Sem mar pra ver, sem vento no rosto. Tentava viver como se nunca tivesse tido ele em sua vida. Acreditou que seria capaz de esquecer todos aqueles anos vivendo lado a lado. Passou um dia, um mês, um ano, uma década. Resolveu aceitar que não tinha como apagar aquela parte da vida, aquela parte dela mesma.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Era plena quarta-feira e decidiu largar tudo. Pai, mãe, amor, filhos, cachorro. Não levou nada da antiga vida, nem a roupa do corpo. Trocou corte de cabelo, sotaque, jeito de andar. Pediu uma passagem pela distância, sem perguntar onde ia parar. O atendente disse que não podia vender uma passagem assim. Fechou os olhos e apontou um lugar no mapa no meio do oceano Índico. Uma ilhazinha que ele nem sabia que existia. O atendente vendeu a passagem e perguntou onde preferia sentar. Respondeu que não tinha mais preferência. Embarcou. Horas de avião, conexões, pessoas diferentes, idiomas diferentes, mundos diferentes e sentiu-se finalmente diferente, sentiu-se ele mesmo, como não se sentia desde que sentiu o ar quase explodir seu pulmão pela primeira vez. Estava pronto, podia voltar.
Dentro do metrô, ouvindo sua música alta nos fones de ouvido, sentia-se em uma bolha. Protegida, invisível e confortável. A música parecia ecoar dentro dela e sentia a paz de quem morre. Calada, quieta, quase imóvel. Tentava adiar a chegada ao seu ponto, como quem tenta prolongar o gozo recém descoberto. Parece não enxergar ninguém ao redor e sente-se sozinha, solitária e feliz. Finalmente pode respirar. E pensar que tudo é incerto e que pode facilmente não descer na sua parada e continuar até quem sabe quando, enche-a de entusiasmo. Duas paradas e chegará sua hora. Duas rápidas paradas. Poderia descer antes. Poderia descer depois. Mas até a música parece prever a iminência de sua saída. Despede-se do vagão, como quem se despede de si. Por um curto momento pôde ser ela mesma. Ali, sentada, foi completamente ela.
Após anos, acordava pela primeira vez livre. Os animais que pareciam o comer por dentro pareciam saciados. Talvez tivessem escolhido outro para devorar. O vento tocava seu rosto e ele sentia a paz que tanto buscou a vida toda. O frio do vento e o calor do sol tocavam sua pele e lhe arrepiavam os pelos, como se sussurassem aos seus ouvidos palavras de amor. Por mais que tivesse de olhos fechados e corpo imóvel conseguia enxergar cada detalhe, cada cor, cada movimento. Uma vida inteira de angústias e agora se sentia sereno, por mais que não sentisse mais nada.
Após a briga, bateu a porta com força e saiu. Raiva saindo pela boca. Desceu as escadas aos pulos e parava a cada lance para xingar alto e algumas vezes esmurrou a parede na tentativa de dissipar a raiva. Nem sabia mais porque seguir aquele caminho se pareciam tão desencontrados em tudo. Ela sentada no sofá soluçava e enxugava o rosto como quem tenta se acalmar. Um segundo, e o sol que fazia lá fora se transformou em tempestade dentro do pequeno loft que dividiam. Lá fora ele enxergava tudo embaçado por causa das lágrimas e por mais que quisesse subir, pedir desculpas, dar um beijo, o orgulho jamais deixaria ele voltar atrás, ceder. Pela janela ela enxergava ele sentado nas escadas do lado de fora do prédio, fumando um cigarro atrás do outro, como quem tenta se matar aos poucos e assim matar a dor. Ele olha pra cima, embusca da janela deles, ela recua e se esconde atrás da cortina. E parece que se olham e se perdoam, mesmo sem se verem de fato.
Quando nada parecia certo, ele a pegou pela mão e disse: Vem comigo. Levou-a para a porta da igreja, ajoelhou-se e pediu-a em casamento ali mesmo. Ela olhou-o emocionada, com lágrimas nos olhos. Estranhamento não eram lágrimas de alegria. Parecia uma mistura de pena e raiva. Ela que tanto queria e esperou por aquele momento, parecia não querer mais. Ela não precisou dizer uma palavra. Ele se levantou como quem levantava uma montanha nas costas e nem conseguiu olhar nos olhos dela, que agora estavam baixos e envergonhados. Ele sabia que tinha perdido o momento, tinha deixado passar a chance, a oportunidade, a vida… esperando pelo momento certo que nunca chegou e nem chegaria mais.
Seu olhar me persegue. E eu sei que não posso. Eu sei que não devo. Na verdade não consigo parar de olhar, fitar, observar. Como se aquilo pudesse nos aproximar. Crio mil estórias na minha cabeça. Todas completamente irreais. Mesmo sabendo disso, acredito e aquilo te torna mais irresístivel. Por mais que eu queira me aproximar, sei que falar poderia facilmente quebrar esse transe. Você falaria uma bobagem, faria um gesto estranho, não se encaixaria na minha ilusão recém criada e toda aquela mágica se perderia em um milésimo de segundo. Então fantasio sua estória de vida, seu trabalho, seus antigos amores, sua música preferida, sua delicadeza. Fantasio sobre seu último relacionamento, cheio de altos e baixos. Noites quentes e brigas intensas. Fantasio você assistindo aquele filme de arte que ninguém mais vê graça e você termina aos prantos, mesmo sem saber bem explicar porque. Mais um olhar, e outro, e outro e enfim volto pra mim. Sem nem mesmo ter trocado uma palavra vivemos uma longa estória dentro de mim que acabou por qualquer motivo ou por nenhum.
Ela corria por entre as árvores e por mais que ele tentasse alcançá-la, não conseguia. Gargalhadas, cheiro cítrico e o cão a latir incessantemente. O mundo parecia parado, ou pelo menos em câmera lenta. Bem lenta. Onde era possível sentir cada aroma, até o da gargalhada estridente que ela dava a cada salto. Como num passe de mágica, uma borboleta toca-lhe a cabeça e aquela imagem parece fazer tudo ao redor brilhar. E de repente ele sente uma paz e uma liberdade que jamais seria capaz de descrever. E nesse transe esquece o mundo ao redor até que sente um toque leve na mão. - Vamos pai! E a gargalhada de quem descobriu ter dado um susto sem querer. E ele nem sabe mais se ele a guia, ou se é ela quem o mostra o caminho.
E eles se despediram como se fosse o fim. Por mais que tivessem a certeza que o reencontro seria breve, a dor que apertava o peito do desconhecido, do incerto, da dúvida, aquela dor tomava o corpo dos dois e eles se apertavam como se aquilo fosse uni-los mais. Mais um abraço, uma lágrima de um que cai na camisa do outro e é levada pra o outro lado do mundo. Um pedaço da dor materializada e incrustada naquela camisa xadrez que tinha tantas estórias boas pra contar. E algumas ruins, é verdade. Como a briga na estação por causa de… de algo que eles nem lembram o que foi, mas que fez os corações distantes por um minuto ou mais. O último olhar antes do embarque, o último aceno, a última imagem antes do novo mundo que os esperava. Parecia tão definitivo, tão ponto final, por mais que fosse uma simples vírgula, capricho do destino, e deles, claro. Eles sempre quiseram isso. Viver o mundo, correr por aí. E no dia que a coisa começa a se concretizar, parece que eles se perdem… Olhares, palavras e pronto. Separados por milhares de quilômetros. Sentado na poltrona, esperando a decolagem, um filme na cabeça e uma lança no coração. Um pedaço se vai e outro fica.
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